lunes, julio 11, 2011

A imoralidade das biografias. Fernando Pessoa

 

Fernando Pessoa

A imoralidade das biografias

      LA INMORALIDAD DE LAS BIOGRAFÍAS
      El genio, el crimen y la locura provienen, por igual, de una anormalidad, representan, de diferentes maneras, una inadaptación al medio. Si descansan, sin embargo, sobre un idéntico fondo degenerativo, si el genio constituye, por sí mismo, una especie nosográfica —son cosas que no sabemos—. Manifestación especial de epilepsia intermitente, como quiso con precipitación Lombroso, o manifestación de una diátesis degenerativa, lo cierto es que el genio constituye, por naturaleza, una anormalidad.
      Sucede que la imaginación simplista de las multitudes no desentraña por instinto aquello que en la personalidad del hombre superior constituye, o representa, superioridad, y lo que en ella resulta de espontánea y justa. En la personalidad todo está ligado, se interrelaciona. No podemos "separar", salvo por un proceso analítico que trunca conscientemente la realidad, en la personalidad de Goethe, por ejemplo, la modalidad específica de su creación literaria y la tendencia alucinatoria que, como se sabe, obliga a la autoscopia1 externa; ni podemos separar en al personalidad de Shakespeare la intuición dramática de, por ejemplo, la inversión sexual.
      La gran multitud de los inferiores fascinados, incapaces de crear y de (...), faltos de inhibición y de sentido crítico, en la imposibilidad de (...), con razonable éxito (salvo un declarado [?] delirio de grandeza) imitar los poemas de Musset o los de Verlaine, pueden, a pesar de ello, con mayor aproximación, plagiar al primero el vaso [?] gigantesco con que se embriagaba cotidianamente, y al segundo su incurable vagabundería y amoralidad de degenerado típico. Quien no puede hacer versos como Baudelaire puede, sin embargo, teñir sus cabellos de verde. La práctica de la pederastia, aunque no siempre sea fácil [...], es sin duda más fácil que la producción de una segunda "Salomé".
      Las biografías de los grandes hombres causan hoy, en sentido inverso, lo que entre los hombres del Renacimiento causó la lectura de Plutarco. Crean un mimetismo [...].

      A IMORALIDADE DAS BIOGRAFIAS
      O génio, o crime e a loucura provêm, por igual, de uma anormalidade, representam, de diferentes maneiras, uma inadaptação ao meio. Se repousam, porém, sobre um igual fundo degenerativo, se o génio constitui, de por si, uma espécie nosográfica — são coisas que não sabemos. Manifestação especial de epilepsia larvada, como precipitadamente quis Lombroso, ou manifestação de uma diatese degenerativa, o certo é que o génio é, de sua natureza, uma anormalidade.
      Sucede que a imaginação simplista das multidões não destrinça de instinto entre o que na personalidade do homem superior constitui, ou representa, superioridade, e o que nela resulta de concomitante, ou intercorrente, anormalidade psíquica, patentemente tal. No fundo, esta intuição espontânea é justa. Na personalidade tudo se liga? se interrelaciona. Não podemos “separar”, salvo por um processo analítico conscientemente truncador da realidade, na personalidade de Goethe, por exemplo, a modalidade específica da sua ideação literária e a tendência alucinativa que, como se sabe, obriga a autoscopia externa; nem podemos separar na personalidade de Shakespeare a intuição dramática de, por ex., a inversão sexual.
      A grande multidão de fascinados inferiores, incapazes de criar e de (...), falhos de inibição e de senso crítico, na impossibilidade de (... ), com razoável êxito (salvo um declarado [?] delírio de grandezas) imitar os poemas de Musset ou os de Verlaine, podem contudo, com maior aproximação, plagiar ao primeiro o copo [?] gigantesco com que se embriagava quotidianamente, e ao segundo a sua incurável vagabundagem e amoralidade de degenerado típico. Quem não pode fazer versos como Baudelaire pode, porém, tingir os cabelos de verde. A prática da pederastia, embora nem sempre fácil [...], é contudo mais fácil que a produção de uma segunda “Salomé”.
      As biografias dos grandes homens realizam hoje, no sentido inverso, o que entre os homens da Renascença realizou a leitura de Plutarco. Criam um mimetismo [...].

1913?
Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. - 133.

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