viernes, mayo 06, 2011

Un fragmento del libro del desasosiego de Bernardo Soares

Bernardo Soares escribió el siguiente fragmento destinado a su Libro do desassossego un 6 de abril de 1930.

 

Bernardo Soares (06-05-1930)

A metafísica pareceu-me sempre uma forma prolongada da loucura latente (L. do D.)

      La metafísica me pareció siempre una forma prolongada de la locura latente. Si conociésemos la verdad, la veríamos; todo lo demás es sistema y alrededores. Nos basta, si pensamos en nosotros, la incomprensibilidad del universo; querer comprenderlo es ser menos que hombres, porque ser hombre es saber que no se comprende.
      Tráenme la fe como un paquete cerrado en una bandeja ajena. Quieren que lo acepte, pero que no lo abra. Me traen la ciencia, como un cuchillo en un plato, con la cual abrir las hojas de un libro en blanco. Tráenme la duda, como polvo dentro de una caja; mas ¿para qué me traen la caja si ella no contiene sino polvo?
      A falta de saber, escribo; y uso los grandes términos de la Verdad ajenos conforme a las exigencias de la emoción. Si la emoción es clara y fatal, hablo, naturalmente, de los Dioses, y así la encuadro en una conciencia del múltiple mundo. Si la emoción es profunda, hablo, naturalmente, de Dios, y así la engasto en una conciencia una. Si la emoción es un pensamiento, hablo, naturalmente, del Destino, y así la apoyo contra la pared.
      Unas veces el propio ritmo de la frase exigirá Dios y no Dioses: otras veces habrán de imponerse las dos sílabas de Dioses y cambio verbalmente de universo; otras veces ocurrirá al contrario, las necesidades de una rima íntima, un dislocamiento del ritmo, un sobresalto de la emoción y el politeísmo o el monoteísmo se amolda o se prefiere. Los dioses son una función del estilo.

      A metafísica pareceu-me sempre uma forma prolongada da loucura latente. Se conhecêssemos a verdade, vê-la-íamos; tudo (o) mais é sistema e arredores. Basta-nos, se pensarmos, a incompreensibilidade do universo; querer compreendê-lo é ser menos que homens, porque ser homem é saber que se não compreende.
      Trazem-me a fé como um embrulho fechado numa salva alheia. Querem que o aceite, mas que o não abra. Trazem-me a ciência, como uma faca num prato, com que abrirei as folhas de um livro de páginas brancas. Trazem-me a dúvida, como pó dentro de uma caixa; mas para que me trazem a caixa se ela não tem senão pó?
      Na falta de saber, escrevo; e uso os grandes termos da Verdade. Alheios conforme as exigências da emoção. Se a emoção é clara e fatal, falo, naturalmente, dos Deuses, e assim a enquadro numa consciência do mundo múltiplo. Se a emoção é profunda, falo, naturalmente, de Deus, e assim a engasto numa consciência una. Se a emoção é um pensamento, falo, naturalmente, do Destino, e assim a encosto à parede.
      Umas vezes o próprio ritmo da frase exigirá Deus e não Deuses: outras vezes impor-se-ão as duas sílabas de Deuses e mudo verbalmente de universo; outras vezes pesará o contrário, as necessidades de uma rima íntima, um deslocamento do ritmo, um sobressalto de emoção e o politeísmo ou o monoteísmo amolda-se e prefere-se. Os Deuses são uma função do estilo.

6-5-1930
Livro do Desassossego por Bernardo Soares. Vol.II. Fernando Pessoa. (Recolha e transcrição dos textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha. Prefácio e Organização de Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1982. - 478.

"Fase confessional", segundo António Quadros (org.) in Livro do Desassossego, por Bernardo Soares, Vol II. Fernando Pessoa. Mem Martins: Europa-América, 1986.

miércoles, mayo 04, 2011

Un poema ortónimo fechado el 4 de mayo de 1914

Fernando Pessoa escribió el siguiente poema un 4 de abril de 1914.

 

Fernando Pessoa (04-05-1914)

Oca de conter-me

Vacía de contenerme
¡Cómo duele la hora!
Pérfida de tenerme
¡Cómo me destruye
mi ser inerme

¡Oh, mi ser sombrío!
¡Oh, mi alma tal
como si por el río
de mi ser idéntico
siempre a mí, y frío

por nocturno y por mío,
pasase, cantando,
una loca, mirando
desde un barco hacia el blando
silencio del cielo.

Oca de conter-me
Como a hora dói!
Pérfida de ter-me
Como me destrói
O meu ser inerme!

Ó meu ser sombrio!
Ó minha alma tal
Como se pelo rio
Do meu ser igual
Sempre a mim, e frio

De nocturno e meu,
Passasse, cantando,
Uma louca, olhando
Dum barco prò brando
Silêncio do céu.

4-5-1914
Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). - 27.

lunes, mayo 02, 2011

Un fragmento de Álvaro de campos escrito un 2 de mayo

Álvaro de Campos escribió el siguiente fragmento un 2 de mayo de 1933.

 

Álvaro de Campos (02-05-1933)

Faz as malas para Parte Nenhuma!

¡Haz las maletas para Ninguna Parte!
¡Embárcate hacia la universalidad negativa de todo
con un gran abanderamiento de navíos fingidos
de los pequeños navíos, multicolores, de la infancia!
¡Haz las maletas para el Gran Abandono!
Y no olvides, entre las escobas y las tijeras,
la distancia polícroma de lo que no se puede obtener.

¡Haz las maletas definitivamente!
Quién eres tú aquí, donde existes gregario e inútil —
y más inútil en tanto más útil,
y más falso cuanto más verdadero—
¿Quién eres tú aquí? ¿Quién eres tú aquí? ¿Quién eres tú aquí?
¡Embárcate, aunque sin maletas, hacia ti mismo, diverso!
¿Qué es para ti la tierra habitada sino lo que no está contigo?

Faz as malas para Parte Nenhuma!
Embarca para a universalidade negativa de tudo
Com um grande embandeiramento de navios fingidos
Dos navios pequenos, multicolores, da infância!
Faz as malas para o Grande Abandono!
E não esqueças, entre as escovas e a tesoura,
A distância polícroma do que se não pode obter.

Faz as malas definitivamente!
Quem és tu aqui, onde existes gregário e inútil —
E quanto mais útil mais inútil —
E quanto mais verdadeiro mais falso —
Quem és tu aqui? quem és tu aqui? quem és tu aqui?
Embarca, sem malas mesmo, para ti mesmo diverso!
Que te é a terra habitada senão o que não é contigo?

2-5-1933
Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 221.