sábado, julio 23, 2011

Life is not of the nature of light - Fernando Pessoa

 

Fernando Pessoa

Life is not of the nature of light

La vida no es de la naturaleza de la luz sino de la naturaleza del fuego.
Vida, la eterna agonía del suspenso, una horrible nada.
Un sentimiento que es locura del pensamiento.

Life is not of the nature of light but of the nature of fire.
Life, the eternal agony of suspense, a horrible nothing.
A feeling that is madness of thought.

s.d.
Textos Filosóficos . Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993). - 176.

jueves, julio 21, 2011

A arte livra-nos ilusoriamente da sordidez de sermos - Bernardo Soares

 

Bernardo Soares

A arte livra-nos ilusoriamente da sordidez de sermos

      El arte nos libra ilusoriamente de la sordidez de ser. Mientras sentimos los males y las injurias de Hamlet, príncipe de Dinamarca, no sentimos los nuestros —viles porque son nuestros y viles porque son viles.
      El amor, el sueño, las drogas y los tóxicos son formas elementales del arte, o, mejor, producen el mismo efecto que él. Pero amor, sueño y drogas comportan cada uno su desilusión. El amor harta o desilusiona. Del sueño se despierta y, mientras se durmió, no se vivió. Las drogas se pagan con la ruina de aquel mismo cuerpo al que sirvieron para estimular. Pero en el arte no hay desilusión porque la ilusión fue admitida desde el principio. Del arte no hay despertar, porque en él no dormimos, aunque soñemos. En el arte no hay tributo o multa que paguemos por haberlo gozado.
      El placer que él nos ofrece, dado que en cierto modo no es nuestro, no debemos pagarlo o arrepentirnos de él.
      Por arte se entiende todo cuanto nos deleita sin ser nuestro —la huella del paso, la sonrisa para otros, el poniente, el poema, el universo objetivo.—
      Poseer es perder. Sentir sin poseer es guardar, porque es extraer de una cosa su esencia.

      A arte livra-nos ilusoriamente da sordidez de sermos. Enquanto sentimos os males e as injúrias de Hamlet, príncipe da Dinamarca, não sentimos os nossos — vis porque são nossos e vis porque são vis.
      O amor, o sono, as drogas e intoxicantes, são formas elementares da arte, ou, antes, de produzir o mesmo efeito que ela. Mas amor, sono, e drogas tem cada um a sua desilusão. O amor farta ou desilude. Do sono desperta-se, e, quando se dormiu, não se viveu. As drogas pagam-se com a ruína de aquele mesmo físico que serviram de estimular. Mas na arte não há desilusão porque a ilusão foi admitida desde o princípio. Da arte não há despertar, porque nela não dormimos, embora sonhássemos. Na arte não há tributo ou multa que paguemos por ter gozado dela.
      O prazer que ela nos oferece, como em certo modo não é nosso, não temos nós que pagá-lo ou que arrepender-nos dele.
Por arte entende-se tudo que nos delicia sem que seja nosso — o rasto da passagem, o sorriso dado a outrem, o poente, o poema, o universo objectivo.
      Possuir é perder. Sentir sem possuir é guardar, porque é extrair de uma coisa a sua essência.

s.d.
Livro do Desassossego por Bernardo Soares. Vol.II. Fernando Pessoa. (Recolha e transcrição dos textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha. Prefácio e Organização de Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1982. - 518.

"Fase confessional", segundo António Quadros (org.) in Livro do Desassossego, por Bernardo Soares, Vol II. Fernando Pessoa. Mem Martins: Europa-América, 1986.

lunes, julio 18, 2011

O milionário e os diamantes - Nota para um thriller - Fernando Pessoa

 

Fernando Pessoa

O milionário e os diamantes

El millonario y los diamantes

Nota para un thriller disparatado o para un filme

X., EL MILLONARIO quien ha vivido en una especie de retiro en algún lugar en el interior de América, viene a Europa con su fabulosa colección de diamantes (? o de valores semejantes). Se sabe que viajará en el "Cantabria", y diversas cuadrillas de estafadores1 están acechándolo, de suerte que los pasajes son (casi con certeza) comprados por estos estafadores o por sus "representantes". Entretanto, también va a bordo un detective profesional. El navío parte, y una muchachita perteneciente a una de las cuadrillas de estafadores comienza una calurosa amistad con el millonario.
      (..) Se suceden diversos incidentes complicados. El cuarto de X es invadido y asaltado dos (?) veces. Después acontece un tercer asalto, y es requisada la cabina de una persona aparentemente insignificante, Y. La extrema consternación de X se hace evidente para las cuadrillas —hay dos o tres— que los diamantes se encontraban en el cuarto de Y y que alguien los había robado.
      Las cuadrillas comienzan entonces a trabajar unas contra otras y ocurren diversos incidentes complicados. (Tal puede ser tornado interesante a través de una secuencia animada, lo que, si esto llegase a ser un filme, podría visualizarse fácilmente.)
      Cuando el navío llega a Southampton (?), la policía ya está avisada y requisa minuciosamente a todos y a todo (???), pero no logra encontrar nada. Entonces se le ocurre a las cuadrillas que el robo pudo haber sido llevado a cabo por el detective, que X desconocía, y el propio millonario dice que así lo desea.
      (...) (Al final, X nunca estuvo a bordo ni tampoco sus diamantes. El pseudo-X era, en realidad, el detective A, de la agencia Srpyer's, y consigue apresar las cuadrillas enteras al llegar a Europa. El documento que firmó como siendo X es inválido, dado que él no es X.)

O milionário e os diamantes

Nota para um thriller disparatado ou para um filme

X., O MILIONÁRIO que tem vivido numa espécie de retiro algures no interior da América, vem à Europa com a sua fabulosa coleção de diamantes (? ou de valores semelhantes). Sabe-se que vai viajar no "Cantabria", e diversas quadrilhas de vigaristas estão no seu encalço, de modo que as passagens são (quase de certeza) compradas por estes vigaristas ou pelos seus "representantes". No entanto, vai também a bordo um detetive profissional. O navio parte, e uma rapariga pertenecente a uma das quadrilhas de vigaristas enceta uma calorosa amizade com o milionário.
      (...) Seguem-se diversos incientes complicados. O quarto de X é invadido e assaltado duas (?) vezes. Depois acontece um terceiro assalto, sendo revistada a cabine de uma pessoa aparentemente insignificante, Y. A extrema consternação de X perante o sucedido torna evidente para as quadrilhas —há duas ou três— que os diamantes se encontravam no quarto de Y e que alguém os tinha apanhado.
      As quadrilhas começam então a trabalhar umas contra as outras e acontecem diversos incidentes complicados. (Tal pode ser tornado interessante através de uma sequência animada, o que, se isto vier a ser um filme, pode facilmente ser visualizado.)
      Quando o navio chega a Southampton (?). a polícia já está avisada e revista minuciosamente todos e tudo (???), mas nada é encontrado. Já ocorrera às quadrilhas que o roubo podia ter sido levado a cabo pelo detetive, que X desconhecia, e o próprio milionário diz que assim o deseja.
      (...) (No final, X nunca esteve a bordo e os diamantes nunca estiveram a bordo. O pseudo-X era na realidade o detetive A, da agência Spryer's, e consegue pernder as quadrilhas inteiras ao chegar à Europa. O documento que assinou como sendo X é inválido, dado que ele não é X.)

1Los "vigaristas" son estafadores que usan para su engaño lo que los portuguesas llaman "el cuento del Vicario (Vigário)" a cuyo origen hace referencia un conocido fragmento pessoano de ficción.

s.d.
Revista Única (publicada no Jornal Expresso. 16-17/07/2011. (Puede descargarse aquí gracias al maravilloso blog de Nuno Hipólito, Um Fernando Pessoa)

domingo, julio 17, 2011

Ecolalia interior - Fernando Pessoa

 

Fernando Pessoa

Ecolalia interior

ECOLALIA INTERIOR

      El portugués es capaz de todo, siempre que no le exijan serlo. Somos un gran pueblo de héroes aplazados. Le rompemos la cara a todos los ausentes, conquistamos con gracia a todas las mujeres soñadas y despertamos alegres, tarde en la mañana, con el recuerdo colorido de los grandes hechos por cumplir. Cada uno de nosotros tiene un Quinto Imperio en el barrio, y un auto-D. Sebastião en la serie fotográfica de Grandela. En medio de (todo) esto la República no se cumple.
      Somos hoy una gota de tinta seca en la mano que escribió Imperio de izquierda a derecha de la geografía.
      Es difícil distinguir si nuestro pasado es acaso nuestro futuro, o si acaso nuestro futuro será nuestro pasado. Cantamos el Fado en serio en el intervalo indefinido. El lirismo, se dice, es la cualidad máxima de la raza. Cada vez cantamos un fado más.
      El Atlántico continúa en su lugar, incluso simbólicamente. Y hay siempre Imperio desde que haya Emperador.

ECOLALIA INTERIOR

      O português é capaz de tudo, logo que não lhe exijam que o seja. Somos um grande povo de heróis adiados. Partimos a cara a todos os ausentes, conquistamos de graça todas as mulheres sonhadas, e acordamos alegres, de manhã tarde, com a recordação colorida dos grandes feitos por cumprir. Cada um de nós tem um Quinto Império no bairro, e um auto-D.Sebastião em série fotográfica do Grandela. No meio disto (tudo), a República não acaba.
      Somos hoje um pingo de tinta seca da mão que escreveu Império da esquerda à direita da geografia.
É difícil distinguir se o nosso passado é que é o nosso futuro, ou se o nosso futuro é que é o nosso passado. Cantamos o fado a sério no intervalo indefinido. O lirismo, diz-se, é a qualidade máxima da raça. Cada vez cantamos mais um fado.
      O Atlântico continua no seu lugar, até simbolicamente. E há sempre Império desde que haja Imperador.

s.d.
Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 3.