domingo, julio 17, 2011

Ecolalia interior - Fernando Pessoa

 

Fernando Pessoa

Ecolalia interior

ECOLALIA INTERIOR

      El portugués es capaz de todo, siempre que no le exijan serlo. Somos un gran pueblo de héroes aplazados. Le rompemos la cara a todos los ausentes, conquistamos con gracia a todas las mujeres soñadas y despertamos alegres, tarde en la mañana, con el recuerdo colorido de los grandes hechos por cumplir. Cada uno de nosotros tiene un Quinto Imperio en el barrio, y un auto-D. Sebastião en la serie fotográfica de Grandela. En medio de (todo) esto la República no se cumple.
      Somos hoy una gota de tinta seca en la mano que escribió Imperio de izquierda a derecha de la geografía.
      Es difícil distinguir si nuestro pasado es acaso nuestro futuro, o si acaso nuestro futuro será nuestro pasado. Cantamos el Fado en serio en el intervalo indefinido. El lirismo, se dice, es la cualidad máxima de la raza. Cada vez cantamos un fado más.
      El Atlántico continúa en su lugar, incluso simbólicamente. Y hay siempre Imperio desde que haya Emperador.

ECOLALIA INTERIOR

      O português é capaz de tudo, logo que não lhe exijam que o seja. Somos um grande povo de heróis adiados. Partimos a cara a todos os ausentes, conquistamos de graça todas as mulheres sonhadas, e acordamos alegres, de manhã tarde, com a recordação colorida dos grandes feitos por cumprir. Cada um de nós tem um Quinto Império no bairro, e um auto-D.Sebastião em série fotográfica do Grandela. No meio disto (tudo), a República não acaba.
      Somos hoje um pingo de tinta seca da mão que escreveu Império da esquerda à direita da geografia.
É difícil distinguir se o nosso passado é que é o nosso futuro, ou se o nosso futuro é que é o nosso passado. Cantamos o fado a sério no intervalo indefinido. O lirismo, diz-se, é a qualidade máxima da raça. Cada vez cantamos mais um fado.
      O Atlântico continua no seu lugar, até simbolicamente. E há sempre Império desde que haja Imperador.

s.d.
Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979. - 3.

No hay comentarios.: