martes, junio 24, 2014

Álvaro de Campos - (Estoy cansado, é claro)


Álvaro de Campos (por Almada Negreiros)



Álvaro de Campos - (Estou cansado, é claro)
{24-6-1935}


Estoy cansado, es claro,
porque, a cierta altura, la gente tiene que estar cansada.
De qué estoy cansado, no lo sé:
de nada me serviría saberlo,
pues el cansancio seguiría siendo el mismo.
La herida duele como duele
y no en función de la causa que la produjo.
Sí, estoy cansado
y un poco sonriente
de que el cansancio sea sólo esto:
Una voluntad de sueño en el cuerpo,
un deseo de no pensar en el alma,
y sobre todo esto, una tranquilidad lúcida
del entendimiento retrospectivo...

¿Y la única lujuria de no tener ya esperanzas?

Soy inteligente, he ahí el asunto.

He visto mucho y entendido mucho lo que he visto,
y existe un cierto placer incluso en el cansancio que nos da esto,
pues, en últimas, la cabeza siempre sirve para alguna cosa.


Estou cansado, é claro,  / Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.  / De que estou cansado, não sei:  / De nada me serviria sabê-lo,  / Pois o cansaço fica na mesma.  / A ferida dói como dói  / E não em função da causa que a produziu.  / Sim, estou cansado,  / E um pouco sorridente  / De o cansaço ser só isto —  / Uma vontade de sono no corpo,  / Um desejo de não pensar na alma,  / E por cima de tudo uma tranquilidade lúcida  / Do entendimento retrospectivo...  // E a luxúria única de não ter já esperanças?  // Sou inteligente; eis tudo.  // Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,   / E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá,  / Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa.

24 - 6 - 1935

Tomado de: Pessoa, Fernando. Álvaro de Campos - Poesia , Assírio & Alvim, ed. Teresa Rita Lopes, 2002


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